Sobre o resgate das nossas crianças feridas

cirança ferida

Todos nós, adultos, sabemos que dentro de nós habita um lado infantil. Sentimos isso quando nos permitimos ser autênticos, vulneráveis, transparentes, sem nos importar com a opinião de terceiros.

Entramos em contato com nosso lado criança sempre que nos reencontramos com amigos da escola ou do bairro onde crescemos e damos risada de trivialidades que vivemos juntos nos bons anos de infância.

Permitimo-nos liberar nossa faceta infantil saudável quando vamos ao parque com filhos, sobrinhos ou afilhados e nos permitimos sentir o frio na barriga de descer no tobogã ou a adrenalina de embarcar na aventura de uma montanha russa.
Essa criança alegre, inocente e autêntica vive em todos nós e sentimos um imenso prazer em resgatá-la sempre que possível.

Há, porém, outra faceta infantil que habita em todos nós e com a qual temos muita dificuldade de entrar em contato. É o que John Bradshaw chamou de “criança ferida”, ou, como preferiu apelidar Patrícia Gebrim, nossa “criança abandonada”. Essa criança triste, frustrada, solitária e revoltada vive em nosso interior, mas, muitas vezes, preferimos ignorar sua presença, pois lidar com ela não é tão simples e fácil.

criança ferida

Resgatar e cuidar de nossas crianças feridas exige que fortaleçamos nosso lado adulto e maduro; afinal, se somos os únicos responsáveis por nossas vidas, nada mais coerente do que usarmos nossas próprias fortalezas para tratar com carinho nosso aspecto infantil, que, muitas vezes, nos boicota e nos envergonha: a nossa criança ferida.

O mais “difícil” de todo esse processo é aceitar que, como adultos e responsáveis pelos caminhos que decidimos trilhar, temos de impor LIMITES a essa criança. Além disso, é necessário entender que, juntamente com esses limites, precisamos, acima de tudo, AMAR, compreender, amparar e proteger essa criança que faz parte de quem somos.

Esse nosso lado infantil é carente e precisa de atenção e amor. Se continuarmos a ignorá-lo, seremos para sempre reféns de suas birras, revoltas e atitudes pouco maduras.

Venho trabalhando esse tema (do resgate da criança ferida) em minha vida e, curiosamente, assisti a dois filmes muito interessantes nos quais são notórios os traços das crianças feridas dos protagonistas.

O primeiro é “Na natureza Selvagem” (Into the wild), no qual o personagem principal sentia uma evidente raiva e uma também visível revolta, decorrente do que ele julgava “falta de amor” de seus pais durante sua infância. No curso de toda a narrativa, fica claro que a “criança ferida” dele fez de tudo para chamar a atenção dos pais e, no final das contas, para receber o amor que tanto anelava. Como não conseguiu o que desejava, em sua vida adulta, ele acabou fugindo do contato com esse seu lado infantil, se isolou de tudo o que o fizesse “lembrar da dor de não haver sido amado” e escolheu um fim pouco feliz para a sua promissora jornada.

O segundo foi “O contador” (The accountant), em que o protagonista (quem sofre com um raro transtorno mental) acaba transformando toda a sua revolta com o “abandono” e os abusos sofridos na infância em atitudes adultas, ao mesmo tempo e de maneira contraditória, pouco éticas e generosas. Em diversos trechos, quando tem surtos, ele lembra [com muita tristeza e revolta] da forma dura, pouco amorosa e fria que seu pai o educou. Sua dificuldade em manter relações sociais íntimas e profundas é bastante similar àquela do protagonista do filme Na Natureza Selvagem.

Muitos adultos (ousaria até arriscar que a maioria de nós) estão vivendo alguma ou algumas situações em que deixam suas crianças feridas controlarem suas vidas. Basta observar pessoas que vivem relacionamentos amorosos abusivos; que são demasiado relaxadas com sua alimentação (permitem-se comer exatamente aquilo que desejam, assim como faz uma criança sem limites); que são irresponsáveis com suas finanças (cometem gastos impulsivos, comprando aquilo que desejam); que são indisciplinados com seus horários de dormir e acordar (assim como são as crianças) ou até mesmo os que cultivam vícios (buscando suprir vazios de sentimentos com outras “coisas”).

Por mais duro que possa parecer, o processo de entrar em contato com essa criança ferida, de conhecê-la e entender quais as suas necessidades, é indispensável, se desejamos viver uma vida adulta plena e sob controle. Curar as feridas dessa criança permitirá que liberemos o potencial criativo, mágico, feliz e encantador de nossa “criança maravilha” e que tenhamos em nossas mãos as rédeas de nossos destinos!

Para quem deseja conhecer mais a respeito do tema e descobrir como cuidar dessa criança ferida que habita as almas de todos nós adultos, recomendo as seguintes leituras:
1.Volta ao Lar- como resgatar e defender sua criança interior. John Bradshaw. Editora Rocco
2.Curar a criança interior. Charles L. Whitfield. Editora Europa América.
3.Gente que mora dentro da gente. Patricia Gebrim. Editora Pensamento.

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Lara Lobo

Sou, assim como vocês, uma buscadora! Curiosa, viajante, fotógrafa amadora e praticante de tudo o que traz equilíbrio à vida. Escritora por terapia, comunicadora por vocação, estudiosa por paixão. Engajada em conhecer-me cada vez mais e, assim, poder ajudar cada vez mais pessoas a também se conhecerem. Alguém que anseia partilhar caminhos, reflexões, jornadas e hábitos que conduzam a uma vida mais equilibrada. Diplomata e professora de Yoga por amor.

  • Francine Estevão

    Excelente texto, Lara. Sinto que só de ler já consegui acolher um pouquinho dessa criança que tanto tem me “desequilibrado” ultimamente. Namastê!

  • Helana

    Amiga, parabéns pelo texto, simplesmente amei a abordagem, mas em especial o tema! Uma reflexão que nunca havia feito e que vejo o quanto é importante para o crescimento de cada um. Vou atrás de ver os filmes e ler os livros, obrigada por compartilhar!

  • Helena Marques Animalista

    Muito grata pelo seu texto de cura da criança ferida que há em nós, Lara Lobo, e muitas felicidades para a sua vida e seu trabalho <3