RESILIÊNCIA: afinal, o que significa isso?

RESILIENCIA

(e o que os refugiados me ensinaram acerca do real sentido de resiliência)

Segundo definição do dicionário, resiliência, no sentido físico, diz respeito à capacidade de um corpo em voltar ao seu estado natural, especialmente depois de haver sido submetido a alguma deformação, ruptura ou tensão. É o poder de resistência e de readaptação; de retorno à forma original.
No aspecto mais subjetivo, resiliência é a capacidade de um ser humano de se adaptar a mudanças, de lidar com problemas, de superar obstáculos, de não se entregar e de recomeçar.

No contexto da ecologia, a resiliência é a aptidão de um determinado sistema que lhe permite recuperar o equilíbrio depois de ter sofrido uma perturbação. Este conceito remete à capacidade de restauração de um sistema.

Em tempos de guerras, deslocamentos humanos forçados e de tantos desastres naturais, assistimos, ao mesmo tempo perplexos e emocionados, a milhares de seres humanos deixando toda uma vida para trás para reconstruir, do zero, suas histórias.
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Esta semana, em choque e em estado de comoção com mais um desastre que atingiu o já tão sofrido Haiti, parei para pensar nas centenas de milhares de seres humanos que sofrem, diariamente, com os sem-número de conflitos que assolam nosso planeta. Para além do massacre na Síria, há os menos falados no Iêmen, no Sudão do Sul, na República Democrática do Congo (RDC), em Mianmar, no Burundi, entre tantos outros. Neste exato momento em que você lê estas palavras, milhares de famílias são separadas; outras centenas de milhares deixam seus países em busca de abrigo seguro em territórios longínquos; há, ainda, os que, depois de perderem tudo e todos, lutam apenas por sua sobrevivência.

A crise dos deslocamentos humanos é hoje fenômeno que preocupa organismos e agências internacionais. E esse triste fato me fez lembrar da primeira vez que tive a curiosidade de saber o real significado da palavra RESILIÊNCIA.

Eu ainda estava no primeiro ano da faculdade de Direito e, curiosa que era pela temática dos direitos humanos, comecei a ler com frequência que uma das tarefas das agências internacionais era fomentar a resiliência nos grupos de refugiados, deslocados e outras vítimas de violações de direitos humanos. Aprendi, na teoria, o significado de resiliência naquele contexto.
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Foi somente quando, servindo em Gana, no noroeste do continente africano, tive a oportunidade de visitar, em 2013, um Campo de Refugiados (Ampain) que pude compreender, de maneira holística, o sentido da palavra RESILIÊNCIA.
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Conversei, olho no olho, com mães que escaparam de perseguições políticas e de violações sexuais, deixando para trás seus filhos e esposos; com profissionais que abandonaram toda uma vida dedicada a seus labores; com idosos que fugiram com a roupa do corpo; com casais separados que, há meses, não recebiam notícias de seus cônjuges; com crianças que haviam perdido todos os seus familiares.
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Essas pessoas haviam abandonado tudo para lutar por apenas uma coisa: SUAS VIDAS. Sobreviviam, quase como animais, dormindo sobre cobertas velhas em tendas de lona, erguidas sobre a terra batida.Todas elas, naqueles dias em que estive ali, me ensinaram algo que nunca esquecerei: O REAL SENTIDO DA PALAVRA RESILIÊNCIA.
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Todos, sem qualquer exceção, estavam ali por uma única razão: desejavam VIVER. E queriam, sim, RECONSTRUIR SUAS VIDAS.

Outra lição aprendida: NOSSO MAIOR RECURSO É NOSSA HISTÓRIA. Eles não iriam recomeçar do zero. Todos ali traziam habilidades, paixões, sabedoria e talentos cultivados ao longo da trajetória de cada um.

Conversei com professores de história, professores de inglês, técnicos em informática, eletricistas, costureiras, cabelereiras, artistas plásticos, cantores, bailarinos profissionais. Troquei ideias também com adolescentes cheios de sonhos, cheios de desejos, de ilusões. Eles que ainda iriam terminar de escrever suas próprias histórias.
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Talvez possamos todos aprender, com o exemplo dos refugiados, a sermos mais GRATOS, mais PACIÊNTES, mais GENEROSOS, mais DESAPEGADOS e mais PERSISTENTES em lutar por aquilo em que verdadeiramente acreditamos. Que, por fim, sejamos todos mais RESILIENTES, afinal, somos nós os autores de nossas vidas não é mesmo?
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Lara Lobo

Sou, assim como vocês, uma buscadora! Curiosa, viajante, fotógrafa amadora e praticante de tudo o que traz equilíbrio à vida. Escritora por terapia, comunicadora por vocação, estudiosa por paixão. Engajada em conhecer-me cada vez mais e, assim, poder ajudar cada vez mais pessoas a também se conhecerem. Alguém que anseia partilhar caminhos, reflexões, jornadas e hábitos que conduzam a uma vida mais equilibrada. Diplomata e professora de Yoga por amor.